Morte: substantivo feminino. Violência, também!

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“Um homem de 22 anos foi preso após agredir a esposa com um cabo de vassoura, nesta quarta-feira (18), no Bairro Juscelino Kubitschek, em Porto Velho… Os policiais foram até o local e encontraram o suspeito, que relatou ter agredido a esposa, pois ela saiu de casa sem avisar e foi ingerir bebida alcoólicas com amigas.” – G1

“Marido tem crise de ciúme e espanca mulher ao vê-la de cabelo pintado e maquiada: ‘afundou a face’, diz polícia” – G1

No Brasil, a cada 90 minutos, uma mulher é morta, vítima de violência; a cada dois segundos, pasmem, uma mulher é vítima de agressão física e/ou verbal. Estatisticamente falando, é impossível não se impressionar com os números, porém hoje vamos falar não sobre números, mas sobre a maneira como a mídia e a sociedade divulga e entende tais fatos.

As notícias jornalísticas citadas não chocam apenas pela brutalidade, mas da constatação do porquê. “…relatou ter agredido a esposa, pois ela saiu de casa sem avisar e foi ingerir bebida alcoólicas com amigas.” / “…espanca mulher ao vê-la de cabelo pintado e maquiada”. Prezados, nos dois casos citados e em tantos outros usamos de motivos irreais para tal ocorrido, o espancamento não ocorreu pela banalidade da esposa ter se maquiado ou saiu com as amigas, mas porque seus companheiros são agressivos e criminosos. Vítimas encaradas como culpadas, provocadoras e consequentemente responsáveis pela consequência de seus atos tão ameaçadores, neste caso, pintar o cabelo.

“Andreia, 35, frequentemente agredida por seu esposo, Roberval, 40, não resistiu a agressão da noite passada, como consequência da morte foi apontado traumatismo craniano. A vítima foi empurrada escada abaixo e bateu com a cabeça numa mobília.”

Vizinhos e ouvintes da matéria:

  • Acontecia bastante. Ela já deveria ter denunciado ele.
  • Ela não casou com ele? Quem casa com homem assim só tem este fim.
  • Ela vivia saia para trabalhar e chegava depois dele, ele precisava de atenção e ficava irritado porque ela não estava em casa.
  • Ela tinha amigas demais, dançava, bebia nos fins de semana, homem não gosta disso.
  • Ela deveria ter batido nele e colocado ele pra fora.
  • Ela morreu porque caiu da escada. Dava pra ouvir os gritos, mas em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.
  • Antes não era assim, mas desde que as mulheres optaram por independência e decidir sua vida sem consultar os maridos deu nisso

Parece bobagem e ilusório, mas não é. Quando uma ou um grupo de mulheres questionam sua segurança e direitos, descartamos por julgar “feminismo”, mas enquanto a sociedade cuida de casos que apontam como prioridades, nos finais de semana, quando delegacias de defesa da mulher estão fechadas maior é o número de vítimas de violência doméstica e apenas casos “graves” são levados a mídia e tratados com seriedade.

Precisamos falar! As desigualdades de gênero estão, ainda, nas raízes de sofrimento físico e mental, violação e morte que atingem bilhões de mulheres de todas as idades, raças, etnias, religiões e culturas e ultrapassam todas as barreiras geográficas. Não existe um padrão de gravidade sobre violência; violência é violência e deve ser tratada como tal. Agressões físicas levam a traumas e morte, verbais causam danos psicológicos que quando não tratados prejudicam o organismo e os mecanismos de defesa do corpo, causando doenças e levando a morte. A lei Maria da Penha não justifica a não denuncia, precisamos investir em políticas públicas de ajuda e combate, um trabalho feito em conjunto: poder público e membros gerais da sociedade.

Crimes ocorrem dentro e fora de casa, não existe local seguro; a falta de compreensão sobre as desigualdades e as relações de poder que são construídas junto aos papéis associados ao gênero masculino e feminino leva à negação de direitos e diferentes níveis de tolerância social à violência. Faz-se extremamente fundamental expatriar papéis para construir uma cultura de respeito aos direitos humanos das mulheres em sua diversidade, é preciso envolver os homens na superação dessa cultura violenta; assegurar o protagonismo das mulheres por meio de políticas públicas de educação, autonomia econômica e financeira, equidade no trabalho doméstico e no trabalho remunerado e garantir o investimento na expansão com qualidade da rede de atenção e enfrentamento à violência.

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