Religião, morte e (Des) conforto

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O feriado de finados é uma ótima oportunidade para despertar memórias e reflexões. Primeiro por se ter perdido alguém por quem nutríamos algum afeto; segundo por se confrontar com a finitude da vida – com ou sem superstições e medos; terceiro por ter que superar ou não essa perda.

Não é novidade que as religiões preenchem brechas contidas na experiência de existir, quando não é incumbida de tentar responder inquietações, nas quais não cabe apenas a racionalidade. Todavia a concepção de morte continua sendo um grande enigma aqui no ocidente, dada o excesso de materialismo a que nossa cultura e o sistema socioeconômico pautam seus funcionamentos.

Apesar de não ser claramente explicitado, mas a forma que o tema morte é abordado pelas religiões, sobretudo para as de matrizes judaico-cristãs, nos leva a crer que se não for um dos pilares é usada de forma análoga. Recorramos as passagens que falam de pecado (leia-se desobediência ou exercício de livre-arbítrio privilegiando a esfera carnal) a morte é citada incansavelmente, soando como uma advertência com base no amedrontamento. Curioso é que tanto “pecadorxs” quanto ‘fiéis’ todxs morrem. A própria vinda do Cristo com o propósito de salvação é concretizada com sua morte para expurgar os pecados de toda a Terra.

Depois do livro de Salmos creio que o livro mais explorado em pregações, especialmente para conversão de fiéis, seja o Apocalipse. E a noção de inferno então? Fala de aflição, gemidos, sofrimento eterno…não sei a vocês, mas imaginei os martírios sofridos pelxs africanxs escravizadxs, os campos de concentração a que judeus e judias foram submetidos, ou com a dizimação dos indígenas por todas as américas com a chegada dos tais colonizadores, os quais usavam a palavra de Deus como artifício de dominação.

Toda essa explanação parte de minha experiência como evangélica estudiosa das escrituras por 7 anos, darei credencial pois dada a onda de conservadorismo que vem tomando o país, me anteciparei antes que esse texto seja submetido à censura.

Há dois anos quando perdemos nossa mãe que era adventista há mais de 15 anos, minha família amargou não só a dor da ausência física da pessoa mais importante da nossa vida, mas a ânsia inescrupulosa de líderes religiosos que tentaram a qualquer custo explorar o fatídico episódio para incitar o medo da morte, e com esse subterfúgio alcançar a conversão dos sete filhos e mais o meu pai, com o discurso palatável da busca da salvação. Ora a salvação perseguida por minha mãe não a isentara de experimentar a morte ainda que esta estivesse vivendo de acordo com a vontade de Deus, então seria muita presunção nossa crer que a partir de então teríamos conforto apenas por carregar uma placa de igreja.

Descobri da pior forma possível que o trecho “pelo amor ou pela dor” equivale a ‘no amor e na guerra vale tudo’, pois foram expostos desabafos realizados por dona Alberta – minha mãe – em momentos de aflição, situações familiares melindrosa e toda sorte de coisas que nos retiraram da atmosfera de dor para a indignação. Os evangélicos não deram a mínima nem pra a memória da falecida, eu acreditava na existência do sigilo, tampouco para o impacto que tais explicitações acarretariam nxs vivxs, sobretudo nos descendentes…

Enfim sobrevivemos da melhor forma possível, e faço de minha dor combustível para lutar por respeito, liberdade, autonomia e conforto para outrxs.

Espiritualidade não equivale à religiosidade. A morte é o final de um ciclo, afinal de contas todos os seres vivos têm um prazo de permanência na Terra. O (des)conforto cumpre a binômio necessário / desnecessário e é possível tirar lições, ampliar a compreensão e formas de percepções acerca do mundo e das relações que possuímos além de sua relevância em nossa vida e no auxílio à superação de dificuldades.

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