Chatterton, Suicidou; Goya, Enlouqueceu; E eu, não vou nada bem.

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Há décadas se debate aquilo que seriam as falências das ideologias. Como frase-penduricalho deste modelo de pensamento pós-moderno está “Deus está morto; Marx está morto; Nietzsche está morto; e eu, não vou nada bem”! Tive essa lembrança lendo texto do Reinaldo Azevedo onde trazia esta vaga ideia. Eu, entretanto, prefiro a música “Chatterton”, de Serge Gainsbourg.

Chatterton, suicidou;
Cléopatra, suicidou;
Isócrates, suicidou;
Goya, enloqueceu;

E eu não vou nada nada bem

Ambos personagens citados no título fazem jus, por assim dizer, à saga Joesley&Janot. Sim, o que veio a público esta semana estabelece definitivamente que os padrões morais de nossa República estão nivelados pelo que há de mais baixo e vil. Quando o MPF, através de seu mandatário maior, se torna refém de um notório bandido – ainda que com a justificativa rasa de se combater o crime – é porquê o crime saiu vencedor.

Joesley Batista, o empresário favorito do Estado Brasileiro, em gravações que demonstram toda sua… espontaneidade, disse coisas escabrosas. Por exemplo, deixou claro que Rodrigo Janot, procurador-geral da República tinha conhecimento e, PIOR!!, incentivava o entrapment contra as instituições. Disse o açougueiro gourmet:

““Não, não é o Marcelo. Nós falamos pro Anselmo. O Anselmo que falou pro Pelella, que falou pra não sei que lá, que falou pro Janot. O Janot está sabendo. Aí o Janot, espertão, o que o Janot falou? Bota pra foder. Bota pra foder. Põe pressão neles para eles entregar tudo”. Link

Que me perdoem a transcrição dos palavrões, mas serve para demonstrar o nível moral do Procurador-geral.

Ah, o Janot espertão… sempre os espertos esquecem de focarem em serem inteligentes. O mito de Janot tornou-se a representação chula do Mito de Chatterton.

CHATTERTON E JANOT

A história de Chatterton não é a mais conhecida pelo público em geral. Para um poeta ele foi um grande mistificador. Ficou conhecido como “o rei do suicídio”, seu autoexílio na eternidade foi retratada na obra que ilustra o texto. Foi venerado como símbolo de uma juventude reclusa, de estilo gótico e com traços traços depressivos. Teria se suicidado em casa.

Tudo teria ganho verossimilhança por escritos antigos, baseados em outros escritos pegos no sótão da igreja que o avô administrara.
Até que revela-se que o “rei do suicídio” não se suicidou!! Morreu, sim, por ingestão de remédio, no entanto, de maneira acidental. Buscava curar a gonorreia contraída nos bordéis de Londres já que, ao contrário da lenda criada em torno de figura tão pequena diante da sociedade, a vã ideia de ser ele um depressivo não passava de mera suposição baseada em conjecturas através de parte de sua obra.

Em síntese, teria Chatterton virado sua própria antítese. O oposto ideal ao Chatterton ideal para os ingleses. Viveu tempo o suficiente para tornar-se lenda; não por sua vida, mas sim por sua morte.

Hoje, 06, o Estadão pediu a renúncia de Rodrigo Janot. Assim como Chatterton, o procurador tornou-se mistificador da própria vida. Parte de sua confusa obra – ora jurídica, ora política – o fez ser uma figura com movimento aos lados do espectro. Janot sintetizou por um tempo os desejos de parte da Esquerda e de partes da Direita. Ambas facções políticas se comportaram de maneira bovina, servindo de amplificador para os irascíveis desejos do Procurador-Geral.

No entanto, viveu demais. Dia 17, quando irá entregar o cargo, ficou longe demais. Logo, Janot mostrou ser antítese daquilo que prescrevia à elite política.

GOYA, ENLOUQUECEU.. JANOT SE MANTEVE SÓBRIO.

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Francisco de Goya (1746-1828) foi um pintor espanhol símbolo do Romancismo. Apesar de se dizer Católico, em uma época em que SÓ SE PODIA SER CATÓLICO, uma série de pinturas chamadas de ‘Los Caprichos’ compõe uma frontal crítica ao Catolicismo inquisidor. Uma dessas obras põe uma mulher de joelhos em frente a uma figura monstruosa de braços abertos e batina. Uma referência à servidão dos povo ao clero. A mente colonizada precedia os joelhos dobrados.

Janot jogou todos os que de alguma forma tinham restrições à Lava-Jato na fogueira. De jornalistas a políticos, qualquer um era vítima do MPF. Não atoa, Janot, a monstruosa figura de Goya, pariu diversos Savanarolas nas repartições públicas.

Como todos inquisidores e Jacobinos, uma hora a navalha também encontra o próprio pescoço. Sóbrio e com certa lucidez, Janot cavou a própria cova por excesso de Poder e Vaidade. É, como dizem, o Poder a droga mais viciante.
A guilhotina que canta pescoços políticos também irá flertar com os patrimonialistas do MPF?

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