Há sangue nas delações da Lava-Jato. Ou: nosso crime sem o glamour de Marseille.

0

Ora vejam, Palocci se tornou um antipetista de carteirinha. Lembro de quando se lançou candidato a deputado federal por São Paulo, escreveu uma tal “carta ao povo de São Paulo”, o sotaque era claramente liberal. Esse mesmo rapaz diz agora que era cabeça guiada, bunda murcha e puxa-saqueta de Lula. Caso houvesse decoro na operação Lava-Jato, pedir-se-ia o mínimo de coerência e verdade para validarem as delações. Mas, estamos falando desta estrovenga que se mantem como Poder independente das demais instituições, então, o que temos é uma delação que beira o reconto de histórias infantis; a perversão da história está muito mais no método de reconta-la que em seu conteúdo original.

Na série Marseille, disponível na Netflix, o crime organizado, que pretende monopolizar a economia da cidade, recruta um personagem político local para depor politicamente o prefeito, que comanda há 20 anos a prefeitura. A ideia do mandatário era entregar o cargo ao seu vice de forma pacifica, o lançando candidato. Mas, sabem como é, né? o Poder não se recebe, se toma! Então, antes do moribundo comandante lhe passar a vaga tentou demarcar território impondo derrotas políticas ao seu ex-padrinho. Em dado momento da série o prefeito diz “há sangue nas ruas de Marseille; e a culpa é sua”. Para quê este resumo? Porque há sangue nas delações em curso na Lava-Jato, e a culpa é da operação. Palocci está condenado há 12 anos, foi então recrutado pela força-tarefa para entregar Lula… assim como o Poder se toma, do Poder também se derruba. E Palocci aceitou, não se fez de rogado.

A narrativa paloccista é fabricada de acordo com o que os procuradores querem. Ou, por que quando ele disse poder delatar o sistema financeiro foi acusado por Moro de estar chantageando? Não havia chantagem, evidentemente, o problema é que não havia interesse naquilo que ameaçava delatar.

As delações dos irmãos Batistas desnudaram o caráter enviesado das colaborações de criminosos aos justiceiros do MPF. Não deixou de ter lá sua graça ver açougueiros gourmet colaborando com justiceiros modernos.

Em uma das gravações recuperadas pela perícia, Joesley diz que para agradar Janot e procuradores “basta dizer que todo mundo é ladrão”. Ora vejam!! É o exercício teleológico do Direito: já se tem o desfecho, só falta o pretexto. Mais importante que isso, evidenciou-se que havia no bojo do MPF trânsfugas que ofereciam serviços jurídicos a investigados, como o caso do Marcelo Miller, procurador braço direito de Janot. Ou, por outra, que se davam condições tão abertas e amplas a determinados colaboradores que bastavam criar uma boa narrativa e pronto, estava firmado o acordo. Não foi assim com Sérgio Machado? Entregou áudios que a MPF concluiu meses depois não dispor de crime algum.

A figura da vez é, uma vez mais, Lula. Após rejeitarem a primeira delação de Léo Pinheiro, por esta inocentar Lula, agora ajudam a fabricar outra delação que possa tornar outra condenação um pouco mais crível. Apesar de os fatos narrados não baterem com a mais singela realidade, ainda assim, serão usados. A justiça caminha para se tornar palco definitivo da pós-verdade.

Mas, nada disso é à toa, caros leitores. A verdade é que a Lava-Jato corre contra o tempo para se tornar um partido político. Deltan Dallagnol, Carlos Fernando e Janot são candidatíssimos. O guri do Powerpoint buscará a vaga de Senador pelo Paraná, enquanto Carlos Fernando pretende ir para a Câmara de Deputados, já Janot mira tomar o estado de Minas Gerais. Afundou, durante seu mandato, Fernando Pimentel, atual governador, e Aécio Neves, o senador cadáver, de onde nada mais há de florescer. Assim como nas ruas de “Marseille”, há sangue nas delações da Laja-Jato. Acabarão pagando pela própria vaidade, absurdamente satisfeita de si.

SEM COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA