Márcio S. Saraiva: Pesquisa eleitoral expõe vácuo político.

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Os resultados da pesquisa do DataPoder360 de agosto/2017 sobre opção dos brasileiros para presidência devem ser lidos com muita cautela. A eleição acontecerá somente em outubro de 2018, depois de uma campanha que, imagino eu, será nitroglicerina pura. Além disso, o quadro de nomes que temos até o momento é muito instável. Lula, por exemplo, poderá ficar de fora se for condenado. Para complicar ainda mais, há uma micro-reforma política em discussão. Quais serão as regras do jogo em 2018? Efetivamente, não sabemos.

Feitas estas ponderações, os dados me trouxeram 5 reflexões pessoais:

1) Lula — óbvio para alguns e surpreendente para outros — é um nome forte para presidente, pois o comportamento do eleitor é fazer juízo retroativo e não moral. Em outras palavras, se eu vivia melhor no tempo em que Lula era presidente, este fato em si, é mais forte do que mil “provas” de que Lula cometeu algum ilícito. Isso, a meu ver, explica Lula na liderança com uma média de 28%, mas em ascenção (23%, 26%, 31%, 32%). O problema de Lula, se candidato for, não é chegar ao segundo turno, mas ser capaz de virar o jogo com ampla rejeição na outra ponta.

2) Bolsonaro tem 18% e se mantém no segundo lugar, mas sem Lula, ele chega a 27% (com Alckmin pelo PSDB) e 25% (com Dória pelo PSDB). Parece que Dória retira eleitores de Bolsonaro ou seria mais eficaz para desidratar Bolsonaro. Por outro lado, sem Lula na disputa, o candidato da extrema-direita consegue ampliar seu raio de simpatia eleitoral (e pesquisa é simpatia, inclinação, pois voto mesmo só em 2018).

3) A candidatura de Ciro Gomes (PDT) fica em 9%. Em alguns cenários fica embolado com Marina Silva (REDE) que chegou a cair para 3% (a depender de outros nomes na disputa). É cedo demais para dizer que Ciro ou Marina estão fora da grande disputa, mas sem dúvida, ambos parecem figurar em segundo plano diante da polarização que vai se cristalizando entre Lula versus Bolsonaro (o melhor cenário para os dois!) e Dória pelo “centro”. A impressão é que neste quadro, muitos eleitores de Ciro pulam alegremente para Lula e muitos eleitores de Marina migram para Dória, fugindo do lulismo e da extrema-direita.

4) A esquerda mais radical (PSOL, PCB, PSTU etc.) é, até o momento, insignificante. Poderá, no máximo, ser útil para fazer a crítica pesada contra Dória e Bolsonaro, mas o efeito colateral disso só faz crescer o PT de Lula e não os seus nomes/programas. Em outras palavras, o “medo” de Dória e Bolsonaro faz Lula crescer e não o PSOL, nem mesmo a REDE de Marina ou o PDT de Ciro.

5) Até o momento, os setores reformistas, de centro-esquerda, não conseguiram construir uma candidatura que possa ser um contraponto ao lulopetismo, sem deixar o vácuo para a extrema-direita “bolsonariana”. Cristóvam Buarque do PPS é viável? Marina e Ciro não encarnaram isso até o momento e, paradoxalmente, um político que se diz não-político, de centro-direita, como é o João Dória, poderá capturar esse mercado eleitoral que hoje está flutuando. Não é por acaso que temos na pesquisa 30%-33% de votos brancos, nulos ou indecisos. Há um vazio abaixo da polarização e quem poderá preenchê-lo?

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