Novembro é tempo…

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Da sociedade brasileira refletir sobre o capítulo vergonhoso de sua história, protagonizado pelo sequestro e escravização de africanxs, um crime contra a humanidade;

De recordarmos a resistência dxs africanxs, transformada posteriormente em lutas protagonizadas pelos descendentes, quanto ao enfrentamento e combate ao sistema escravocrata em prol da conquista ao direito à liberdade;

De entendermos a relação entre raça e pobreza, a partir da revisitação dos bastidores da história e da forma injusta que nossos ancestrais foram expurgados dos meios de produção quando estes passaram a ser remunerados;

De negrxs disseminarem reflexões e inquietações referentes as oportunidades desiguais que possuem em relação não-negrxs e ou brancxs referente a ocuparem espaços dentro de uma sociedade que ainda não se recuperou do trauma causado por relações de poder perdurado por toda a existência desse País, sobretudo porque insiste em negar essa mácula;

De homenagear nossos ancestrais que tornaram a vitória possível, sobretudo Zumbi e Dandara dos Palmares;

De enaltecermos nossa beleza, a influência de nossa cultura e contribuição desde os primórdios da nação brasileira;

De discutirmos o racismo, suas diversas manifestações, seu impacto nas pessoas  que são expostas a essa violência e continuar denunciando racistas;

De entendermos a relação raça e violência urbana / policial, no tocante ao genocídio da população que corresponde a jovens negros entre 14 e 29 anos;

De nos fortalecermos em grupos, a partir do compartilhamento de experiências  vivenciais entre nossos pares;

De compreendermos a relação raça e dificuldade no acesso aos serviços básicos como saúde, educação, segurança, moradia, trabalho e renda;

De nos engajarmos em atividades que não só nos proporcionem, mas também a quem possa interessar, conhecimentos elucidadores acerca de problemáticas que dizem respeito a todxs, direta e indiretamente;

De nos autoafirmarmos e, decorrente disso arcar com o efeito colateral que tal ato político resulta: termos que enfrentar provocações de sujeitxs que insistem em deslegitimar nossa causa, e nessa época tem tentado nos silenciarmos com o discurso de que não existem raças, pois a raça é humana (todavia as teorias que respaldaram o racismo científico tiram a lógica de etnia dando espaço para a utilização de raça, com o intuito de explicar superioridade e inferioridade a partir de características físicas, sobretudo a cor da pele);

De rechaçar o discurso perverso que apregoa a tal da consciência humana tentando nos empurrar goela abaixo que estamos fazendo racismo inverso a utilizarmos e disseminar a consciência negra – que se trata de um posicionamento político ideológico;

De problematizarmos o uso descabido de palavras e expressões que reforçam a estigmatização do povo negro, tais como: DENEGRIR, PRETERIR, ESCLARECER, OBSCURO, Dia de Branco, Ter um  pé-na-cozinha, A coisa tá preta, Coisa de preto, dentre outras inúmeras;

De sermos levados a participar de eventos que só cumprem tabela, mas no fundo não cooperam pra indagar tampouco indignar a nenhum algoz, ou a condição de desvantagem a que os afrodescendentes foram e são submetidos até então, antes servem pra reafirmar violências simbólicas, subjugamento e dar manutenção a lógica dominante;

De propormos atividades em localidades que carecem de tais abordagens, todavia serem esvaziadas pela falta de adesão resultante da falta de recursos para divulgação massiva, ou de falta de identificação do público que nunca é contemplado como temas de real interesse, ou por aderir a discursos desqualificadores proferidos por figuras que possuem visibilidade e privilégios para formar opinião pública;

Da necessidade de nos aquilombarmos com o intuito de crescer e avançarmos, pois continuamos tendo Palmares como exemplo de lugar para resistência funcional, igualitário, com possibilidade para o exercício da liberdade e construção coletiva;

De demonstrar nossa insatisfação em sermos maioria da população e não nos vermos representados nos mais diversos setores, sobretudo nos cargos de visibilidade e poder;

Da insatisfação por não sermos chamados a participar de debates nos quais serão tomadas decisões que impactarão na sociedade em geral, como por exemplo o desenvolvimento de políticas públicas universalistas, e por ausência da escuta dos clamores dessxs atores/atrizes sociais acabamos não sendo minimamente contemplados;

De denunciarmos o projeto de sabotagem operacionalizado pelo Estado brasileiro em relação à população negra, materializado através do encarceramento em massa, pois sua grande maioria os reclusos sequer passaram por um julgamento, ou quando  excedem o prazo de cumprimento da pena, sem contar com os delitos de baixa gravidade que no ato da prisão ganha maior dimensão, por causa do racismo institucional manifestado na conduta do agente operador dos mecanismos que integram a justiça.

De falarmos da hiper sexualização do corpo feminino negro, e o mito da hiper resistência a dor;

De falarmos sobre a negligência sofrida nos pré-natais, seguida pela violência obstétrica a que são submetidas por mulheres negras e pardas, pois além de não poderem optar pelo tipo de parto também sofrem intervenções sem ao menos serem consultadas, e em sua maioria esmagadora são as que não recebem anestesia e tem seus corpos mais lesionados;

De refletirmos porque as mulheres negras são as mais violentadas sexual e fisicamente;

De questionar porque as mulheres negras e pardas são as mais acometidas pelo zyka vírus e qual a relação entre a falta de ações de profilaxia em localidades periféricas, onde são ocupadas por essa parcela populacional e ocorrências de gestações nas quais há o desenvolvimento de bebês apresentando as síndromes genéticas, como : hidrocefalia, microcefalia e afins;

Se diante de todos esses pontos e provocações vocês ainda se mantiverem ilesos, sem ter ao menos o privilégio da dúvida, sinto em informar mas você é um racista em potencial!

 “Se as feridas do seu irmão não te causam dor, a sua doença é mais grave que a dele”.

Autor desconhecido

Fontes de dados que ratificam as afirmações contidas no texto:

 IBGEMAPA DA VIOLÊNCIAIPEA ONU

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