[Parte 01] Introdução ao método materialista histórico dialético

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Dentro da cátedra universitária e dos círculos de movimentos e partidos de Esquerda, há um incrível desconhecimento das bases do marxismo que moldaram estes movimentos e partidos. Conceitos fundamentais acabam sendo negligenciados no curso da militância política e da vida acadêmica, portanto, o texto que se segue pretende ser uma introdução, uma pequena elucidação que contribua para a formação teórica do militante.

POR QUE UM MÉTODO?

Poucos personagens na história da humanidade tenham sofrido tamanha desinformação e calúnia póstuma quanto Karl Marx. As bases de sua filosofia foram pervertidas em espantalhos, em caricaturas irreais e caluniosas, e a isso se deve parte da grande ignorância que se tem sobre sua obra.

Basicamente, um dos melhores modos de se perverter uma ideia é lançando sobre ela uma pergunta igualmente pervertida. E é por isso que a primeira parte do texto se inicia com uma pergunta que considero correta: por que um método? Ou, melhor: por que o método materialista histórico e dialético?

Primeiro responderei essa pergunta antes de elucidar todos os termos usados.

Acreditamos – não sem razão – que o nosso polegar é fruto de todo um processo evolutivo que, apesar de aleatório, segue determinadas leis naturais e regras. Cremos – igualmente com razão – que o dia se torna noite porquê o Universo tem leis e regras que possibilitam que os planetas, incluindo a Terra, ronde o Sol enquanto gira no próprio eixo. Então, por que acreditar que as sociedades se sucedem apenas como amontoados de eventos aleatórios sem razões ou explicações para além da simples análise conjuntural datada?

É contra essa visão que reduz a história da Humanidade a eventos desconexos que Marx elabora um método que conseguisse dar vida inteligível aos movimentos das épocas.

Segundo o professor João Paulo Netto, é dever dos teóricos legarem uma dimensão inteligível a movimentos de cunho prático.

O Materialismo Dialético é a pedra sobre a qual a Igreja de Pedro do Marxismo foi alicerçada.

Todos possuem e vivem sob o manto de uma filosofia. As classes dominantes incutem a própria filosofia como ideologia das massas proletárias.

Diz Marx, em A Ideologia Alemã:

As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual. As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal [ideell] das relações materiais dominantes, as relações materiais dominantes concebidas como ideias; portanto, das relações que precisamente tornam dominante uma classe, portanto as ideias do seu domínio.”

Apesar de bastante destrinchado, é importante ressaltar que as nossas ideias não são simplesmente nossas, até porque o mundo sensível não escapa da formação societal construída pela classe dominante; nossas ideias são emulações, reproduções e sínteses das ideias das classes dominantes.

Ou, citando Marx mais uma vez: não é a consciência que determina a vida; é a vida que determina a consciência.

Como não lembrar, por exemplo, de Fukuyama decretando “o fim da história” em 1994? A ideia de Fukuyama foi aceita sem muita resistência até pela Esquerda parida em 68 e se tornou um norte político: acabou as resistências ideológicas, a polarização e as Grandes Narrativas; só nos resta aceitar o curso natural do Capitalismo e seguir apenas domando-o.

O resultado pode ser analisado como a radicalização de um processo pós-político e pós-histórico.

Dentro da literatura filosófica de Esquerda, o termo pós-histórico encontra seu fundamentador em Vilém Flusser. Podemos chamar de Alegoria da Caixa-Preta seu estudo intitulado “Filosofia da Caixa Preta”, onde ele usa a fotografia e a caixa escura que captura a imagem como símbolo de nossa sociedade pós-histórica; a caixa-preta já é programada, o fotógrafo apenas a manipula para cumprir sua finalidade, não o muda, apenas o administra.

A Alegoria da Caixa-Preta se refere exatamente ao modo como a nossa civilização atual está presa em mistificações e quimeras construídas a partir das estruturações ideológicas das classes dominantes.

Ainda que o fotógrafo, usando o raciocínio de Flusser, faça o que queira, o seu limite é fazer apenas aquilo que a máquina fotográfica permita fazer. É o aparelho seu próprio limite.

O filósofo esloveno Slavoj Zizek repensou o âmago da sociedade pós-moderna e financista como a Sociedade Pós-Política Biopolítica. O sequestro óbvio de uma ideia foucaultiana é a cara ironia de sua análise: é Foucault, um dos responsáveis pela crescente irresponsabilidade teórica na academia, que teve como cume a degradação das ideologias, que irá emprestar seu estudo para um outro filósofo descrever as consequências de sua militâncias.

Para além da polêmica vazia por mim levantada, superando essa interminável discussão, Slavoj Zizek radicaliza a ideia primitiva no conceito de Pós-História de Flusser:

“Hoje é evidente que as duas dimensões se sobreponham: quando se renuncia às grandes causas ideológicas, tudo o que resta é a administração eficaz da vida… ou quase apenas isso. O que significa que, com a administração especializada, despolitizada e socialmente objetiva e com a coordenação dos interesses como nível zero da política, a única maneira de introduzir paixão nesse campo e de mobilizar ativamente as pessoas que é através do medo, um elemento que constitui de modo racional a subjetividade nos dias de hoje.”

Sim, é sintomático dos tempos em que vivemos que o discurso que mais mobilize seja aquele que fortifique nossos medos: anti imigrantes, contra os LGBTT’s, negacionistas de toda ordem e supremacistas raciais retornam como forças reacionárias de grande poder político.

Apesar de reacionárias, estas forças não retornam como defesa a um movimento revolucionário, mas como uma defesa à perda de centralidade do discurso ideológico de Direita para um discurso liberal-democrático descafeinado. As elites globalistas, ou Sociais-Liberais, incorporaram o discurso plural, inclusivo e tolerante ao sistema capitalista; combate-se a violência opressora fática sem alterar as engrenagens que as possibilita e, pior!, a real raiz da violência.

Logo, os grupos que retornam com discursos que cheiram a naftalina, apesar de cada vez mais jovens, reproduzem o pensamento de uma época que insiste em não recuar para as tumbas do pensamento, e o motivo é simples: as relações materiais na sociedade criaram não a superação de uma ideia, mas a manutenção dela enquanto hegemônica; ela cria a sua própria oposição, que reflete, no mais das vezes, apenas a diferença de intensidade com que se aplica no plano real.

A biopolítica é filha dileta da pós-política por ser a administração de nossa segurança moral e física contra o assédio das mudanças cada vez mais rápidas ocorridas em um mundo sem barreiras ou obstáculos para a livre circulação de mercadorias.

No entanto, ainda fica a pergunta em aberto: por que um método para explicar os passos da humanidade e por que esse é o melhor método?

O empreendimento da sociedade burguesa é, segundo Marx, revolucionar a si mesma. Mas, como então entender esse empreendimento sem ter as lentes corretas para enxergar todas suas diatribes?

Quando a o feudalismo sucedeu a escravidão, e o Capitalismo enterrou o sistema feudal, pensou-se: estamos diante de um processo natural. É a inexorabilidade da natureza o Capitalismo.

De acordo com diversos estudiosos da História, a desigualdade no século 18 era imensamente menor que em 2015, por exemplo. David Landes foi um dos primeiros a observar que o mundo pré-revolução industrial, apesar de, em grande parte, ser paupérrimo, vivia, do Ocidente ao Oriente, com determinada equivalência material. Segundo o último relatório de Coeficiente Gini [índice internacional que mede as desigualdades sociais e o nível de concentração de renda], a desigualdade na América Latina era um nível de 0,469, numa escala de 0 a 1.

A concentração de renda no Continente americano pode ser ainda maior se o leque for estendido para a América do Norte em comparação com a periferia Latina.

Então, tendo em vista a velocidade vociferante do Capitalismo e de sua reprodução, Marx, apenas um século depois da constatação de Landes, percebia que a Inglaterra estava mergulhada num sistema de exploração e de explosão das desigualdades, logo, era necessário não apenas compreender o que acontecia, mas também como acontecia, por que acontecia e onde aquilo poderia chegar.

A influência de Hegel no jovem Marx o fez redescobrir a Dialética Hegeliana e a aprimorá-la. Se Hegel tinha um claro viés idealista – em certa parte, fantasmático mesmo – Marx repudiava essa atribuição e, então, adicionou o Materialismo à análise dialética.
Não se buscava a concepção das mudanças em suas cabeças, mas nos modos de produção da sociedade.

O sistema Hegeliana é uma totalidade perfeita: Tese – Antítese = Síntese. A síntese então ocupa o lugar de nova tese, num ciclo infinito de oposições e contradições que se fecham sempre de forma acaba e total.

A síntese é a representação do Espírito, da ideia do Absoluto, que sempre é renovada por uma nova elevação da ideia fantasmática de Espírito da Verdade.

Já o Materialismo abdica da teologia para explicar os fenômenos reais. É o Mundo em constante movimento e fluxo que importa. Em certa parte, há até uma elevação do Mundo Sensível de Hegel a um grau quase solipsista: é o Mundo, e apenas esse Mundo, que determina e é determinado por suas contradições internas. A externalidade espiritual não é criador, mas criação. Não atoa, em “A Ideologia Alemã”, Marx e Engels exortam a religiosidade como a criação que dominou o criador.

Essa mutação teórica, saindo do simples idealismo para o materialismo, dentro da Dialética é responsável pela estruturação da ideia de Luta de Classes, que é, digamos assim, o grande norte possível para a Esquerda Mundial.

A Luta de Classes, ao contrário do que pensam, não é uma categoria sensível, não é um conceito instrumental, mas uma imanência da própria lógica capitalista, onde as classes polarizam e acirram a disputa, como brevemente dito no primeiro capítulo do Manifesto Comunista, de 1848.

É intrínseco a um sistema de classes haver uma luta insuperável, a menos que o próprio sistema de classes seja destroçado.

Logo, o método Materialismo Histórico e Dialético é essencial para a disputa revolucionária por ser, antes de tudo, uma teoria sobre a Prática. É aqui que se examina a Práxis Revolucionária de Marx.

A práxis revolucionária é a atividade de transformação das circunstâncias, as quais nos determinam a formar idéias, desejos, vontades, teorias, que, por sua vez, simultaneamente, nos determinam a formar novas circunstâncias e assim por diante. Pode-se dizer que o conceito de práxis revolucionária é uma relação entre teoria e prática coerente com a idéia de Marx de uma sociedade sem exploração, onde não haja a divisão baseada em classes.

CONCLUSÃO

Tem-se então a resposta para as duas perguntas lançadas: por que um método?

Para que se saiba como e onde chegar. Se a sociedade burguesa tem a própria filosofia e os próprios métodos de reprodução e manutenção, por que o proletariado iria superá-lo sem um método revolucionário?

É necessário retornar a Marx e lembrar de uma de suas frases mais coléricas: “a ignorância nunca ajudou ninguém”.

E, por que o método Materialista Histórico e Dialético?

Em toda a história do pensamento político, de Aristóteles a David Horowitz, nenhuma formulação metodológica conseguiu analisar e provocar tanto abalo nas bases estabelecidas quanto o desenvolvido por Marx e Engels.

Tomando emprestado uma conceituação de Violência Revolucionaria de Zizek, somente o Materialismo Histórico e Dialético consegue ser violento o suficiente para amassar as torres despóticas do Capitalismo.

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